Dedicado a: A. S. P. + hacia Todo lo Justo, lo Bueno y lo Bello +

Um mundo para valentes

Délia Steinberg Guzmán



inútil fechar os olhos ante as incontáveis catástrofes que atingem o mundo, algumas produto da Naturaleza em seu indecifrável movimento, outras filhas da mente e das mãos humanas. Quando não são terremotos, furacões, enchentes, são mostras de inusitada violência, guerras à espreita…

Enfim, e para não aumentar a lista, uns poucos exemplos das muitas situações que nos torturam.


Do ponto de vista da Filosofia, sabemos que os clássicos predicaram uma atitude valente e positiva às pessoas, não ficar imóvel ante a dor, nem a alheia nem a própria, mas, ao contrário, colocar em jogo as forças de cada um para atenuár-la na medida do possível. E é isso o que queremos, o que tratamos de fazer, ainda que não consigamos mais que uma pequena parte do que se anseia.


Mas, às vezes, nos assalta o desejo de fugir da mentira, da feiúra, da grossería, do desequilíbrio. Há uma sede intensa de paz, de beleza, de armonía, e muito poucos lugares onde encontrá-las. Daí que se amplie o reduto interior, esse lugar que nos pertenece e onde, se desejamos e sabemos fazê-lo, podemos guardar os maiores tesouros.


Há poucos lugares serenos, mas em troca existe um imenso jardim dentro de cada ser humano. E continua havendo centenas de coisas belas que aquietam o espírito e permitem recuperar forças.


Quando tudo rui e parece que vamos tombar sem chegar a entender porquê lutamos, nem aonde vamos, todavía brota uma flor, um som, uma cor, uma forma graciosa, uma idéia profunda, uma palabra brillante, um sentimento generoso, uma mostra de gratidão, um poema, um canto, um templo…


Sem estar em guerra, hoje quase todos vivemos em guerra. O mundo fere, as sociedades que propõem o encontro humano são as que, consciente ou inconscientemente, agridem aos que nelas vivem. O mais comun é padecer de angústia, cansaço, ansiedade; e o pior e também habitual é carecer de palavras para explicar essa ansiedade que nos corrói.


Não é um problema que afeta aos adultos, aos mais comprometidos com a vida; também os jovens, os adolescentes estão cansados e esgotados mesmo antes de terem começado a viver, e temem o futuro que os espera, ou o ignoram sob outra das máscaras do temor.


Em meio aos conflitos é quando se valorizam as pequenas coisas, as coisas boas, simples, belas. Em meio ao assédio de mil e uma agressões, nada tão maravilhoso quanto o oásis de um livro pleno de experiências atemporais, um violino que lança melodias através de um moderno aparelho que, no entanto, nos transporta a tempos passados ou vindouros, tempos tranqüilos; uma voz que se eleva vitoriosa em meio ao ruído, impondo sua harmonia sonora; um pouco de história que se realiza ante nossos olhos ansiosos de aprender despertando pontos adormecidos na memória.


Mas são instantes fugazes. São apenas o repouso do guerreiro, que não sabe porquê está na guerra, nem contra quem deve batalhar, mas sente que tudo ferve ao redor em um espasmo de dor e incerteza. Recobrado a ânimo, o guerreiro assume a outra face do filósofo e volta-se à ação.


Sabe que para além de seus sofrimentos há um mundo que sofre ainda mais, que há milhares de pessoas que necessitam ao menos do alívio de uma mão amiga ou de uma palavra, de uma idéia reconfortante, de um esboço de futuro esperançoso.


Por isso não há quietude; só a ação do que reconhece a pequenez de seu trabalho e o tempo que julga sua necessidade, a ação do que após uma dura jornada abrirá a porta de seu jardim interior e encontrará as belas flores de seu breve descanso


Talvez, algum dia, essas flores possam abrir-se em toda a face da terra.



OL_Photo: Gettyimages©

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